05/05/2026
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Um ano depois, origem de plantas no Rio Pardo é mistério

Mais de um ano depois do aparecimento das plantas aquáticas no Rio Pardo, em Ribas do Rio Pardo, a 97 km de Campo Grande, ainda não se sabe a origem do fenômeno. As macrófitas começaram a tomar o rio em fevereiro de 2025 e deixaram trechos cobertos por vegetação, o que dificulta a navegação, a pesca e o lazer.

Na época, o proprietário de um imóvel no local, Maikon Roger Vargas de Araújo Calzolaio, entrou com uma ação popular contra a Pantanal Energética Ltda., responsável pela usina, e contra o Imasul (Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul). O advogado Marco Antônio Teixeira afirma que, do ponto de vista técnico, não houve atuação efetiva do poder público. Segundo ele, a responsabilidade principal é do órgão ambiental estadual, que deveria ter exigido medidas adequadas.

Teixeira diz que o processo ainda está em andamento e que aguarda a fase de manifestação após as contestações dos réus. Ele explica que a Pantanal Energética assumiu o compromisso de manter o local limpo, mas não teria cumprido. “Só depois de grande repercussão na imprensa e do ingresso da ação judicial é que começaram a tomar providências”, afirma.

De acordo com o advogado, a abertura das comportas, que poderia ter sido feita meses antes, ocorreu tardiamente e contribuiu para o agravamento do problema. Ele afirma que as algas continuam se proliferando em diferentes pontos do lago e que a situação piorou com a interrupção da liberação de água. “O lazer foi afetado. Ninguém consegue mais usar o lago para atividades como barco, lancha ou jet ski”, diz.

Na ação, são apontadas duas irregularidades: a falta de limpeza do lago pela empresa e a omissão do Imasul no licenciamento ambiental. Teixeira afirma que o órgão não previu medidas de compensação para a reprodução dos peixes, já que a barragem impede a piracema. Ele cita alternativas como programas de repovoamento com alevinos, que não estariam sendo adotados. Também há indícios de poluição por excesso de nutrientes na água, com níveis elevados de fósforo apontados em análises do próprio Imasul. O órgão aplicou multa a uma empresa da região e a empreendimentos rurais, mas eles não foram incluídos na ação judicial.

A Prefeitura de Ribas do Rio Pardo afirma ter tomado medidas imediatas. O diretor do Departamento de Meio Ambiente, Marcelo Ângelo da Maia Cunha, informa que uma reunião foi realizada em 21 de julho de 2025 com o prefeito Roberson Moureira, o secretário de Desenvolvimento Econômico Luiz Eduardo e o diretor-presidente do Imasul, André Borges, para tratar do problema. O Imasul orientou o município a requisitar as licenças ambientais de grandes empreendimentos ao longo do rio. A prefeitura formalizou o pedido e recebeu a documentação, mas ainda aguarda os dados de monitoramento da qualidade da água que essas empresas são obrigadas a apresentar.

Cunha diz que o Imasul realizou uma vistoria e autorizou a empresa Elera, responsável pela usina, a abrir as comportas para extravasar as macrófitas rio abaixo. Ele ressaltou que a ação ocorreu com autorização do órgão ambiental e que a prefeitura tem atuado de forma articulada.

Moradores relatam que o problema continua. O empresário Victor Baziliche afirma que a água apresenta mau cheiro e as plantas se acumulam nas margens. “Nossa área desvalorizou cerca de 80% por conta dessas plantas. Está horrível às margens da água no meu rancho”, conta. O professor Leondeniz Guariero, também proprietário de imóvel no local, diz que a situação pouco mudou. “As plantas sobem e descem o rio. Está bem melhor do que antes, o rio está navegável, mas a poluição continua. O Rio Pardo jamais será o mesmo”, afirma.

A professora Edna Scremin-Dias, do Instituto de Biociências da UFMS, aponta que o fenômeno indica eutrofização, causada pelo excesso de nutrientes na água, possivelmente de atividades agropecuárias, esgoto e redução do nível do rio. A barragem também contribui ao alterar o fluxo e favorecer o acúmulo de sedimentos. Ela afirma ser necessário realizar análises químicas para identificar os níveis de nutrientes, inclusive da água devolvida ao rio por empreendimentos como a Suzano. O Imasul e a usina foram procurados pela reportagem e o espaço permanece aberto para manifestação.

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Sobre o autor: Sofia Almeida

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