A cantora e compositora Mel Dias, de 27 anos, lançou o clipe da música “Deusa da Favela”, gravado no Bairro Dom Antônio Barbosa, em Campo Grande. Moradora da região desde os 13 anos, a artista escolheu as ruas onde cresceu para dar visibilidade ao seu trabalho mais pessoal.
“Eu quis muito que as pessoas, além de escutarem a minha voz e a minha mensagem, pudessem ver de onde genuinamente sai essa mensagem”, afirma Mel. A escolha do cenário foi pensada para que o público enxergasse a realidade que inspira suas letras, que falam da terra vermelha, das memórias e da rotina das mulheres da periferia.
Apesar do título, Mel destaca que a música não é uma exaltação pessoal. “Eu escolhi esse nome não para me enaltecer, mas para reconhecer e mostrar tantas deusas que existem na favela”, explica. A canção começou a ser escrita há anos, com versos surgidos durante viagens de ônibus às cinco horas da manhã, e foi apresentada no show “Deusa da Favela” em 2023.
Cada detalhe do clipe tem significado. Uma cena foi gravada ao lado de uma árvore que existe desde a formação do bairro e servia como ponto de referência para os moradores. O véu usado por Mel foi encontrado pela mãe da cantora em um centro de reciclagem onde trabalhava, e o vestido é o mesmo do espetáculo anterior.
“Tem muitas camadas nesse trabalho. Aquela árvore representa memória. O véu representa a comunidade e a luta coletiva. Essa música se formou junto comigo”, afirma a artista.
A identificação com a periferia acompanha Mel desde os 17 anos, quando conheceu as batalhas de rap em Campo Grande. “Ali eu vi que era possível colocar em canção a nossa realidade, o nosso pensamento e os nossos desabafos”, relata.
Hoje, com quase uma década de carreira, Mel diz que ser artista independente de rap em Mato Grosso do Sul ainda é um desafio. Segundo ela, falta valorização financeira e visibilidade para quem produz música autoral. “Eu me sinto correndo muito para que a gente possa ter cachês dignos. Ainda somos muito invisibilizados”, analisa.
A motivação, segundo a cantora, vem da conexão com quem vive a mesma realidade. “O que me dá força é saber que eu canto para quem convive comigo. Somos maioria”, finaliza. O clipe de “Deusa da Favela” está disponível no YouTube.
