O sinal vermelho da educação: o que a fila dupla na escola ensina sobre o futuro
Por Carlos Alberto Rezende | 28/07/2026 10:20
Nos horários de entrada e saída das escolas, especialmente nas particulares, o cenário se repete. Carros em fila dupla ou tripla ocupam faixas inteiras. Crianças desembarcam pelo lado do trânsito. Pais buzinam com impaciência. O objetivo é economizar dois minutos de caminhada ou garantir que o filho pare o mais perto possível do portão.
O que parece uma infração de trânsito comum é uma aula prática de cidadania. A lição transmitida às crianças é que o conforto individual está acima das regras e do bem-estar coletivo.
Ao desembarcar no meio da rua e ignorar a faixa de pedestres, o adulto passa uma mensagem de exclusivismo. A criança aprende que é especial demais para andar um quarteirão. Ela entende que as leis são para os outros e que o espaço público é uma extensão de sua conveniência privada.
O resultado dessa “pedagogia do privilégio” aparece com o tempo. Anos depois, essa mesma criança, já adulta, estaciona em vagas reservadas para idosos ou pessoas com deficiência. Para em vagas de amamentação “só por um minutinho”. Fura filas, joga lixo pela janela do carro e reage com agressividade ao ser contrariada. É o retrato de uma sociedade individualista e sem senso comunitário.
Os pais cobram das escolas uma educação de excelência com valores morais. Mas esquecem que a educação pelo exemplo começa no banco do motorista. Estacionar um pouco mais longe, dar a mão ao filho, caminhar até a escola e atravessar na faixa de pedestres tem um valor pedagógico grande. Ensina empatia, respeito às leis, paciência e a noção de que vivemos em sociedade.
Para ter adultos conscientes no futuro, é preciso corrigir atitudes no presente. O trânsito na porta da escola não é só uma questão de mobilidade urbana. É o espelho do tipo de ser humano que está sendo criado.
(*) Carlos Alberto Rezende é conhecido como Professor Carlão.
