Cento e sessenta e cinco mulheres foram presas no Rio de Janeiro entre 1700 e 1740. Eram cristãs-novas, convertidas ao catolicismo. Embora batizadas e consideradas católicas, eram suspeitas de heresia por cultuar secretamente o judaísmo, as “Leis de Moisés”. Foram perseguidas no Brasil durante três séculos pelo Tribunal do Santo Ofício. Obrigadas a se apresentar ao Tribunal sem saber do que eram acusadas, eram julgadas e condenadas ao cárcere. Tinham todos os bens confiscados e eram obrigadas a usar o hábito penitencial perpétuo, o sambenito, que as desqualificava publicamente.
Os oficiais da Inquisição usavam o tormento, a tortura, para obter informações. Algumas cristãs-novas resistiram meses ou anos no cárcere. Outras morreram presas ou no mar a caminho de Lisboa. Várias foram açoitadas e degredadas para Algarve ou Angola. Apenas uma não foi condenada. No mesmo período, 150 homens cristãos-novos foram julgados e condenados como hereges.
A colonização portuguesa trouxe ao Brasil uma imagem polêmica dos judeus. Navios com “degredados” foram enviados à colônia. Entre eles, havia prisioneiros políticos e judeus perseguidos pela Inquisição. No fim do século 16, o Rio de Janeiro tinha cerca de 20 mil pessoas. Desse total, aproximadamente 600 eram cristãos-novos. Judeus, chamados de “gente da nação”, estavam espalhados por Pernambuco e Bahia, onde tiveram liberdade religiosa durante a dominação holandesa e francesa.
Ao retomar Pernambuco em 1654, Portugal enviou as Visitações do Santo Ofício para verificar o cumprimento dos princípios da Igreja. Práticas sexuais “contra a natureza”, bruxaria, insultos à igreja e atos judaizantes eram punidos. Cristãos-novos eram proibidos de se unir a católicos e de exercer cargos públicos. Eles atuavam no comércio, na exploração de madeiras e no cultivo de açúcar. Pesquisas mostram que as mulheres cristãs-novas, principalmente na área rural, eram ativas nos negócios agrícolas.
A Coroa tinha relação hostil com invasores holandeses e franceses. Recursos eram cobrados dos cristãos-novos pelos Visitadores. A 1ª Visitação do Santo Ofício ocorreu em 1591 para Bahia e Pernambuco. O Visitador Mendonça chegou à Bahia em 9 de junho de 1591. Nove dias depois, publicou um Auto da Fé e deu 30 dias para a população se confessar e denunciar outras pessoas. A população, com medo da tortura e da fogueira, procurava o Visitador para se confessar.
As três primeiras cristãs-novas presas no Rio de Janeiro foram Leonor, Catarina e Brites. A partir delas, a Inquisição obtinha nomes de parentes e conhecidos. Os denunciados, sob tortura, citavam outros nomes. Filhas denunciavam mães, mães denunciavam filhas, maridos denunciavam esposas. Famílias inteiras eram denunciadas por comportamentos como não comer peixe sem escama ou vestir roupas limpas na sexta-feira. As punições iam do cárcere à morte na fogueira, como ocorreu com o dramaturgo Antonio José da Silva, “O Judeu”.
A Inquisição agiu formalmente até 1774, quando o Marquês de Pombal retirou a autonomia das Igrejas. Em 1889, instalou-se no Brasil uma República laica. O calendário brasileiro tem festividades católicas e há cruzes em edifícios parlamentares. Durante o século 20 e as duas décadas do 21, religiões de origem africana foram perseguidas e discriminadas, com assassinatos e destruição de objetos de culto.
Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que cerca de cinco mulheres são assassinadas por dia no Brasil em 2026. Do total de vítimas, 64,2% são mulheres negras. Samira Bueno, do Fórum, afirma que a violência no Brasil precisa considerar a seletividade racial. Em 2023, cerca de 11 milhões de mulheres sofreram violência de parceiro íntimo. A pesquisa indica que, antes do assassinato, a mulher viveu anos de violência.
